quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Qual é a liberdade de pensamento? - por Tatiana Rostaiser Petti


       Dizem que, desde a gestação, o ser humano é capaz de ouvir e armazenar informações no inconsciente. Assim, em todo o decorrer da vida, acumula sentimentos, experiências e dados que lhe constroem. Sabia disso e vivia não se importando. Afinal, os pensamentos simplesmente surgiam; não se podia controlá-los.
Até que adquiriu novo conhecimento. Descobriu que os verdadeiros pensamentos são influenciados pela consciência e pela tomada de decisões, que podem aparentar comumente rigidez e acabar com certo romantismo do livre arbítrio.
Como um antônimo só é capaz de existir por causa do outro e vice-versa, enquanto não há prisão, não há liberdade. E houve a clareza dessa situação: quando se vê consciente de pensamentos e ações, tem o poder de decidir o que deseja pensar.
Esta é a verdadeira liberdade. Estar livre para decidir pensar o que quiser. Até o fato de que o pensamento guiará ações e, consequentemente, resultados aparecerão. Se quiser outros, portanto, precisa mudar o que pensa.
Vigilância constante tornou-se necessária. Para cultivar a paz e uma consciência tranquila, decidiu manter apenas pensamentos impulsionadores deste propósito. Como consta na Bíblia: tudo me é permitido, mas nem tudo me convém.
Sabe que a liberdade está aí, mas não deve ser deixada à deriva. Contraditoriamente, a constante vigilância das ideias é que dá sentido à verdadeira liberdade de pensamento.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

A ilimitada riqueza - por José C. M. Navarro


Cada um à sua crença, à sua vontade, ao seu ritmo, é filho de Deus.
A alguns a riqueza incomensurável de castelos e tesouros é bastante; para outros, livros ou taças de vinhos são suficientes a outros, nem isso é necessário.
Cada um, ao seu ritmo, sua vontade ou sua crença tem sua riqueza, finita ou não.
O que é inerente e pertencente a todos, porém, é que existe uma ilimitada riqueza que dispensa castelos, livros ou vinhos, que dispensa todo o material que nos envolve.
Falemos desta riqueza, portanto.
Não me é apropriado falar de outrem, seja bem ou, principalmente, sendo mal. Faço meu caminho o mais discreto possível, dentro da felicidade e facilidade que me é outorgada.
Pouca riqueza material preciso. Tenho abrigo, comida e afeto. Amigos, meus entes queridos, alguns livros, uma ou outra taça de vinho, intensos os livros, saborosos os vinhos, infinitos gestos queridos. Pessoas, vinhos e livros como sempre sonhei, por perto todos, embora talvez nem sempre os mereça.
Tenho tanto a escrever e outros versos a declamar.  Há muito, ainda a se contar. Não vou incomodar, ou agradar, que seja, porém a gregos ou troianos, pois não os externarei ao extremo. Deixo-os apenas aos convites e apelos de tão poucos amigos que se dispuserem a tal benevolência e que de antemão conhecem o que faço e o que fiz.
Aos não tão amigos, se um dia, foram brilhantes como o rei sol, noutros viraram estrelas, mais frias e distantes, depois obscuros planetas para chegaram a simples asteroides, tão estéreis quanto inúteis, sem sequer algum baobá como diria Saint Exupery, passo ao largo. Que fiquem em seu habitat e se deslumbrem com os meios que encontram para chegar ao seu próprio fim. Vivam em seu mundo.
Por mim, fico com o razoável material, mas, sobretudo, usufruo do  imenso imaterial que me foi outorgado.
O aplauso é um gesto posterior. O apupo também. Ambos vêm depois da ação, e bem distante do pensamento inicial. Somos todos, não metamorfoses ambulantes como disse Raul, mas sim, pensamentos em constante mutação, pensamentos estes que resultam em projetos, destes em ações e que por fim geram ora as lágrimas ora os vivas. Somos o que imaginamos ser e este desejo real nos leva à efetiva riqueza. E por aí vamos. Apupos ou aplausos, muito valem, mas são apenas guias que nos levam a aceitar ou rejeitar o ato de (re)pensar em si em um momento futuro. O aplauso não deve iludir, o apupo nunca matar, que sejam guias para os próximos pensamentos, só.
Nossa liberdade não está na caminhada. Não só nela. No pensar sim.
Esta é nossa ilimitada riqueza, minha e sua, não ignoremos isso.
Está no ato que nos fez caminhar, no sonho, no projeto, na elaboração e, ou principalmente, (e originariamente) no pensamento, reforço isso.
Livres somos para buscar as estradas que nos levam ao destino final ou ao nada descabido; livres para externar amor ao próximo e dedicar alguns momentos de raiva a quem os merecer; livre somos ao estender a mão, seja para dar, seja para pedir; livres para chorar o leite derramado ou o externar o amor desenfreado.
Sou eu, particular e intensamente rico para exercer o livre pensamento ao (buscar) elaborar alegorias fellinianas ou imitar chaplinianas caricaturas, sem ser Fellini, muito menos Chaplin; sou livre em apenas cantar meus versos ou declamar meus poemas, em lutar e concretizar meus pensamentos, em amar e, agraciado em ser amado.
E, mais ainda, livre para externar o sim e reclamar o não, ou exigir o sim e rebuscar o não; para existir e não simplesmente viver; para efetivamente ser e não apenas estar.
Lastimo, (apenas lastimo), não julgo de quem se vale de sentimentos alheios e os toma para si como mote perpétuo para seu pensamento, para sua existência.
A liberdade do pensamento é o veículo que nos conduz à perfeição em elaboração. Nunca chegaremos àquela, mas estamos sempre caminhando nesta.
Com incredulidade, São Tomé duvidou e externou:
                       “Quero ver para crer”.
Longe Dele, em distância, sapiência e santidade, dentro da liberdade de pensamento que me foi outorgada pela Misericórdia Divina, com o molde de que fui feito, ouso modificar e reformar a mesma frase e dizer no mesmo tom, com a mesma liberdade, certa ou errada, bonita ou feia, real ou fantasiosa, concreta ou abstrata, aceita ou não, mas eu a proferiria alterando a ordem das palavras e ela, na verdade, seria na origem do meu livre pensamento:
                      “Quero crer para ver”. 
Com toda essência, propriedade, perfeição e riqueza que meu livre pensamento me outorgou.

sábado, 14 de julho de 2018

Cá estamos! - por Paulo Eduardo


Miguel Munhoz, meu avô - por José C. M. Navarro


Miguel Munhoz, meu avô

As águas do Mediterrâneo (ou já seriam do Atlântico?) juntavam-se outra vez e faziam desaparecer a trilha que o navio fazia.
Salgadas eram, como salgadas foram as lágrimas que o jovem encostado à amurada com abundância vertia.
Não tinha ideia de tempo passado ou da distância percorrida, sabia apenas, e apenas sentia a dor daquela discussão impensada, que o levou da cozinha à porta da casa; daí à rua; daí ao porto, daí ao navio e daí ao Mediterrâneo ou já seria o Atlântico?
Amainou-lhe o ímpeto, aflorou a razão. O que fizera estava feito, se bem ou se mal, não o sabia, mas antagonizavam-se o cérebro e o coração. O bem atiçava aquele, o mal a este afligia.
Deixara mãe e irmã chorosas em casa, consigo trazia seu próprio pranto a se mergulhar naquelas águas salgadas.
Cada segundo, sua cidade natal mais longe, cada momento, sua aventura mais próxima.
Miguel brigara em casa e saíra. Portas batidas, raivosos e duros passos, um porto à frente, um navio de partida.
Embarcara, sem rumo nem passagem, viveu clandestino até mais não poder e dentre tantas decisões certas e erradas, tomou mais uma, apresentou-se ao comandante do navio.
Do espanto à reprimenda, da decisão ao castigo, do convés à cozinha, passou a separar restos de comida e a lavar pratos. Era sua paga por seu ato inconsequente. Desceria no próximo porto e ao seu completo arbítrio o que fazer da sua aventura. Limpar restos e lavar pratos, mas por pouco tempo.
Graças ao seu atrevimento, sua ousadia, sua capacidade, logo deixou a cozinha e passou ao salão, servindo mesas e recebendo passageiros. Ao sobressair neste novo mister assegurou não só sua ida ao destino do navio mas, principalmente sua almejada volta ao porto inicial, não mais clandestino, mas efetivamente incorporado ao grupo de servidores do navio.
No arrependimento da ida, sonhava com  a volta.
Tantos dias no mar, Tantos dias em viagem, chega finalmente o navio em seu destino. E as ocorrências são as normais de todos os navios. Aportam, descarregam, desembarcam passageiros e lá vão os tripulantes e descobrir os segredos e mistérios que aquele porto esconde.
Miguel fez o que todos faziam e fizerem. A roupa cotidiana foi trocada por outra mais nova, comprada com os parcos recursos que sua atividade proporcionou e de alma limpa e revigorada foi conhecer o mundo.
No pensamento o propósito de descobrir o desconhecido, no coração a promessa da volta. Voltaria sim, entraria pela mesma porta que saíra e recomeçaria sua vida na cidade natal.
Mas foi andando. Estabelecimentos vários se lhe apareceram, uns mais elegantes outros nem tanto e um mundo novo se descortinava à sua frente. Palavras estranhas soavam-lhe aos ouvidos, embaraçavam-lhe os olhos, porém com sua perspicácia e vontade de aprender foi gradativamente tomando ciência do novo linguajar e entendendo o que cada palavra representava.
Demora-se o navio para zarpar, escasseiam-lhe seus recursos e ele se vê obrigado a buscar dentro daqueles restaurantes e bares uma forma de suprir tão preocupante falta.
O que não lhe foi difícil. Novamente sua audácia e perseverança os levaram à cozinha do restaurante, de inicio e ao salão principal depois. Tão pouco espaço de tempo, tão largo progresso.
O navio está completo pronto para zarpar, todos a bordo. Todos menos um, Miguel fica, Miguel ficou.
É mais um a servir no salão do restaurante e, pensamos que assim seria, se não fosse o nosso velho e considerado destino e trançar seus fios.
Explico melhor. Servia mesas, naturalmente, quando percebeu um aumentar de voz em inicio de discussão entre um de seus companheiros e um casal de clientes. Preocupou-se em ajudar e prestando atenção percebeu entre as vozes exaltadas palavras conhecidas, que o levaram de imediato à sua terra natal.
Aproximou-se, intermediou os dois lados e arranhando seu português iniciante conciliou com o casal de clientes em seu vistoso castelhano. Serenaram os ânimos. O atendente voltou ao seu trabalho e o casal passou a ser servido por Miguel. A conta foi alta, e alta foi também a ascensão do imigrante até o ponto do casal, notando sua quase juvenil beleza e austera eficácia o convidou para vôos mais altos e assim, com pouca mala e pouca cuia, vê-se o espanhol aventureiro desbravando São Paulo.
Conto a historia de um solitário imigrante, de nome Miguel Elias Munhoz, nascido em Almeria aos 18 de fevereiro de 1895 e falecido em São Paulo, aos 18 de junho de 1944, Miguel Munhoz, meu avô.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Última flor do Lácio - por José C. M. Navarro

Disse-nos Bilac que é a Última flor do Lácio, inculta e bela. Casemiro de Abreu trouxe-nos a saudade aurora da sua (e nossa) vida, Gonçalves Dias nos lembra das palmeiras onde cantam os sabiás. Já João Cabral nos falou do nordestino, da parte que lhe cabia naquele latifúndio. Duque Estrada levou-nos ao gigante pela própria natureza, mas lamentamo-nos também por cantar o deitado eternamente em berço esplendido.
Para não nos estendermos muito, paremos com Machado de Assis, que chorou em versos suas visitas à última morada da sua Carolina e ofereceu, com esmero e arte, as batatas aos vencedores. Todos eles e os que mais recentemente por aqui passaram: Clarice, Vinicius, Amado, Bonfim cantam e encantam com o uso da nossa bonita - e as vezes tão maltratada - língua portuguesa, nossa língua nacional, oficial, real.
É certo que veio importada trazida pelos descobridores e colonizadores portugueses; é certo que tomou lugar do velho e hoje quase desaparecido tupi-guarani, mas é de fato nossa língua nacional.
Palavras transmutaram, perderam o significado, viraram pó, outras surgiram. Novos vocábulos confundiram ideias, modificaram o sentido, mas aqui a temos.  Invasores surgem, estrangeirismos que se imiscuem em sua grandeza. Por vezes, também, absorve e incorpora elegantemente os abajures, os cachecóis e continua a se mostrar, como as distintas e elegantes senhoras, sua classe e dignidade.
Língua Pátria, com sua norma culta, com seu linguajar coloquial, com seus dialetos regionais, com seus modismos sociais. O falar rebuscado e a conversa irritante; o correr singelo das ideias e a inverdade galopante; a segunda pessoa do singular usada pelo intelectual, o verbo descompassado do pronome, jorrado pelo menos instruído.
Caminho das longas e instrutivas conversas, onde os pais, os mestres transmitiam e transmitem aos filhos, aos alunos o bom, o correto, o que se deve fazer e o que não se deveria fazer. Abro um parêntesis para prestar minha homenagem ao meu pai por me ensinar a juntar o B e o A e que me fez chegar onde cheguei.
Caminho das notícias que correm o mundo, falando de virtudes e desvarios; de ganhos e de perdas; de passado e de futuro, que nos chegam a todo instante, guiando nossos dias, modificando nosso cotidiano.
Dos enganos e desenganos a que todos estamos sujeitos; dos amores e desamores a que todos estamos passíveis.
Desafortunadamente, porém, muito temos a lamentar nos dias de hoje. Perdeu-se o rumo da boa leitura e, por extensão, da boa escrita. O atual e acelerado cotidiano inibiu o uso de palavras na sua plenitude; perdeu-se o espaço da linguagem escrita, perdeu-se muito, queira Deus que não percamos a identidade de que nossa língua portuguesa é portadora. É nossa missão fazermos a nossa parte.
E, para encerrar, obrigatório se torna, recorrer a Olavo Bilac.

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Mentira - Por José Carlos Munhoz Navarro


Mentira

Por José Carlos Munhoz Navarro


     Certo ou errado, verdade ou mentira, todos os dias ele se sentava à frente do espelho e via as mágoas da sua vida no seu rosto sulcado por rugas profundas e olhar distante.
    Aos poucos, um bigode amarelo aqui, uma sobrancelha espalhafatosa, uma bocarra, e, para completar um redondo e vermelho nariz de palhaço, desaparecia o José da Silva e estava em cena o Zeca Peruibe.
     Respeitável Publ..., o apresentador não conseguia concluir sua fala pois o palhaço surgia por traz do palco, tropeçando em seus sapatos, na bandinha, no mundo e se enroscava com o mestre de cerimônias levando-o ao chão e começava suas palhaçadas da sua noite no circo. E por quase uma hora, levava tombos reais, dava e recebia fantasiosas bofetadas, fazia caretas mil, ria e chorava – de verdade e de mentira -  até sair de cena, extenuado e gratificado, pois tinha feito aquela meia dúzia de crianças e respectivos pais, passarem momentos de alegria e descontração. De sexta a quarta, pois de quinta ia ao hospital da cidade para fazer seu número. 
     No hospital sua função era mais elevada. Por uma manhã inteira, às vezes por uma tarde inteira, às vezes por um dia inteiro, fazia aqueles jovens pacientes se esquecerem de injeções, soros, curativos e bandagens, de terapias e exames para se alegrarem, e mais, sorrirem, e mais, gargalharem com suas caretas e micagens.      E todas as crianças, para não dizer, enfermeiras e médicos tinham cada um o seu brilhante e berrante nariz vermelho e se juntavam aquele Zeca Peruibe, alegre e descontraído palhaço, alter ego do José da Silva, triste e solitário.
     Entrava nos quartos mostrando apenas o rosto e recebia em troca o grito feliz da criança que naquela hora, naquele dia a verdade dolorosa da sua vida sumia, deixando espaço para a verdadeira mentira que Zeca lhe contava e assim era, e assim foi.
     O palhaço chorava escondido, chorava sim, quando punha sua cabeça na porta e via a cama vazia, leito limpo e liso, lençóis arrumados, dizendo que aquele amiguinho não estava mais lá, não estava mais com a gente. Mas ele engolia sua verdade dolorosa e ia ao próximo quarto externar – não o que sentia, mas sim o que o pequenino na próxima cama dele esperava. E assim foi por tantos e tantos anos que o José da Silva um dia se imaginou como sendo a própria mentira, nomeando Zeca Peruibe como a absoluta verdade.
     Tanto é verdade que depois que ele se foi, muitos anos depois, o hospital colocou em destaque um pequeno retrato que indica a ala infantil, nele não está a austera e sisuda figura do José, mas sim, a feliz e deliciosa mentira que foi o Zeca Peruibe (ou teria sido, na essência, o inverso?).

FANTASIA - José Carlos Munhoz Navarro

Fantasia
Um sambista folião
Entre voltas, piruetas deu-lhe a
mão
E   a passista da sorriso intenso
Sentiu amor imenso por aquele folião
E   a passista da sorriso intenso
Sentiu amor imenso por aquele folião
Na avenida, a escola faz sua passarela
Todos desfilam para a mul -ti - dão
Ele desfilava só para ela
Mas a escola não ganhou
E o encanto, como encanto se desfez
Ela foi embora, ele nem chora
Como não chorou, chorou nenhuma vez
É sempre assim, nem leva a mal
Foi amor de carnaval
Ta ta ta ta ta ta ta ta
Repica, repica o tamborim
A escola estava com nossa cara
Nunca tinha saido tão bonita assim
Mas a escola se desfez
E o encanto como encanto se perdeu
Se ela foi embora, o passista não chora
Como não chorou, chorou nenhuma vez,
E sempre assim, ele nem sofre mais
É fantasia, como são todos carnavais